RESUMO

Para o resto do mundo, Please come to Brazil é um meme. Para Douglas, é um mantra. Neste romance sobre música pop, um jovem web-divo usa chats imaginários com cantoras como se fosse um diário. Ou um confessionário. A partir dessas mensagens sem respostas, ele tenta entender a vida: vestibular, desejo, luto, fama, religião, família e tudo que couber em uma DM.

 

PRIMEIRO CAPÍTULO: ARIANA GRANDE

É como a frente de um palco, mas Douglas está na primeira fila de uma estufa de salgados. O garoto, 18 anos de idade e 15 de aparência, observa cada um deles por meio da câmera do celular. O balconista serve clientes mais apressados.

Um pão de queijo tem cara de ser meio borrachudo.
— Thank you, next — comenta Douglas.
Uma coxinha velha serviria como peso de porta.
— Thank you, next.
Um dog assado está cravejado por uma salsicha banhada em cheddar. — Thank you, nex…
— Você vai ficar falando inglês ou vai pedir alguma coisa? — interrompe, o atendente.

Douglas não ouve. Está entretido com o celular e publica no Instagram o vídeo em que cita o hit de Ariana Grande.
— Ein, fala aí, pai — insiste o balconista.
Douglas toma um susto e bota o celular no bolso do moletom vermelho de tecido puído, dois tamanhos acima do dele.
— Um café com leite. Duas partes leite morno e três partes café.

Ele beberica e nota uma fila para entrar em um colégio estadual na região centro-sul de Belo Horizonte com muro ilustrado por versões da Turma da Mônica que poderiam ter sido pintadas por Picasso.

Quando a fila diminui, lá vai Douglas. É o segundo fim de semana de Enem. Ele procura a sala, entrega o celular desligado e se senta na carteira com o nome dele, não sem antes coçar o bigode fininho. Apoia os braços mais fininhos ainda na carteira e se esconde em seus cabelos semilongos. O corte foi feito após mostrar uma foto do Harry Styles, mas os cachinhos, segundo ele, fazem lembrar a Dona Nenê da Grande Família ou Maísa Silva na versão cinco anos. A mão corre da raquítica costeleta para as costelas. “Que respiração é essa?”, pergunta-se. Vem uma falta de ar. Quando olha para os lados, sente-se como se todos estivessem o olhando.

O barulho do relógio de parede está cada vez mais alto. Os ponteiros marcam 6:30h, mas pulam para 13:30h. Ele vê 6:30h de novo, passa a mão nos olhos e balança a cabeça. Os ponteiros retornam para 13:30h, a hora correta do começo da prova. Uma menina abre a embalagem com os dentes e come um chocolate. Um menino toma goles de água. Sons imperceptíveis são como uma rave. Ficam cada vez mais altos.

Douglas começa a bater o lápis na carteira, imaginando ser um ator de uma comédia musical teen. Passa a cantarolar “Breathin”, da Ariana Grande. Usa o tempo da música e a cadência dos versos para controlar a respiração. A música é entoada numa voz mais baixa do que uma cantora de 1,56 m:

— Just keep breathin' and breathin' and breathin' and breathin'. And oh, I gotta keep, keep on breathin'. Just keep breathin' and breathin' and breathin' and breathin'. And oh, I gotta keep, keep on breathin'.

Continue respirando, continue respirando, você tem que respirar, continue respi… Tudo se apaga. Ouve-se um barulho, alguém cai da carteira e todo mundo grita de susto. Douglas é um dos poucos que está calado. Ele está estirado no chão. Dois alunos e um fiscal de prova correm para levá-lo ao banheiro.

Recomposto e acompanhado de outro fiscal, passa água no rosto. Na volta para a sala, não tem batuque ou cantoria. Sorrisos amarelados de adolescentes que não desmaiam em provas o rodeiam. Uns cinco minutos após o tempo mínimo de permanência em sala, ele se levanta e entrega a folha de respostas. Tudo está em branco. Teria até saído antes, caso não tivesse se perdido observando os cabelos de um garoto dono de um penteado que faria inveja em Trump.

Douglas ama quando um vai e vem de fios lhe faz lembrar do que chama de “origami capilar”.

Findado o sofrimento, é hora de pegar o celular e digitar uma direct message para Ariana Grande no Instagram, mesmo que ela não faça ideia de quem ele seja.

Querida Ariana, acabei de sair da prova mais importante que já fiz. Passar no vestibular é um jeito de mostrar que sou um cara normal. Um cara normal com crises de ansiedade, mas normal. É isso que uma pessoa da minha idade faz. Mas não consegui. As pessoas da minha idade fazem provas e fazem sexo. Nunca mandei bem em uma prova, mesmo estudando demais. E nunca transei, mesmo vendo XVideos demais. Como ter uma saúde mental toda fodida afetou sua vida? E como dá pra viver assim? Preciso conversar com você. PLEASE COME TO BRAZIL.

Ainda com o celular na mão, Douglas se encontra com Heitor e Helsa. É difícil imaginar que um dia formaram um casal. Seria como se algum sem noção de The Office desse match com uma personagem de Downton Abbey. Douglas costuma zoar que “os opostos se atraem, mas isso aí já é sacanagem”.

Eles esperam o filho escorados em um compacto carro bege de rodas carecas e capô amassado. Os dois estão discutindo quando o garoto se aproxima. — Fica uma semana sem falar comigo e quando fala é pra buscar o menino, pra pedir dinheiro… — reclama Heitor, amarrando com cuidado seu mirrado rabo de cavalo.

Helsa ajeita o cinto delicado que compõe o look com seu vestido de bolinhas. Ela pensa em chamar o ex-marido de “careca cabeludo”, mas repensa a provocação: — É aquele velho ditado, né? Botou no mundão, paga pensão.

Heitor prende o sorriso e responde com uma braveza forçada. — Que ditado o quê? Cê acabou de inventar essa mer… O garoto pula na frente do pai, que abre a porta do carro e se senta no banco do motorista. O garoto se antecipa ao interrogatório, diz que foi mal na prova e desvia do assunto: — O que você tá comendo, mãe? É torresmo?

Com um torresmo na mão, ela nega. Diz que é “ar crocante”.

Encher a boca de crocância não diminui o olhar triste compartilhado por Helsa e Douglas. — Me dá mais um aí.
— Isso, come, meu menino. Vai dar tudo certo… Quando ficar nervoso, canta aquela música…

O silêncio toma conta do carro por pelo menos três minutos, tempo o bastante para uma família com fama de barulhenta.
— Nossa, que climão. A gente tá saindo de uma prova ou de um velório? — pergunta Heitor. 

Helsa fecha os olhos e canta alto “Ainda se vier…”
Douglas responde:
— As duas coisas. Morreu minha vida acadêmica.

Helsa continua orando, chorosa: — Noites traiçoeiras…

Heitor olha para Helsa, que segue com a missa show: — Se a cruz pesada for…

Douglas tira o celular do bolso e começa a usá-lo. — Não faz sentido nenhum marcar uma prova nesse horário — indigna-se Heitor.

Helsa ainda está de olhos fechados cantando: — Cristo estará contigo. O mundo pode até fazer você chorar… só vocês!

Douglas completa com timidez: — Mas Deus te quer sorrindo.

Heitor garante que marcar provas na hora de jogos de futebol não faz sentido, porque fogos de artifício e a gritaria de um Galo e Cruzeiro podem atrapalhar. Douglas muda de assunto. De novo. Quer saber o cardápio do jantar. É cachorro-quente. Ele sorri ao ouvir a resposta da mãe. Doug pergunta ao pai se dá para ligar o rádio. Está quebrado. Helsa sabe a capacidade que o ex-marido tem de adiar certos afazeres e priorizar outros. Então, não reclama. Até porque ele garante que o mês está “ruim de serviço” e que hoje todo mundo é um pouco faz-tudo. Se você quiser azucrinar Heitor, basta botá-lo para ver um tutorial de YouTube. Ele se sente impotente. Se hoje todo mundo faz tudo, o que fará o faz-tudo?

Ari, como era a sua relação com seus pais? Amo minha mãe. Também estou aprendendo a dar valor ao meu pai, principalmente depois que eles se separaram. Daí ele se casou, teve dois filhos, estava começando a ter uma vida nova e tal… mas a nova esposa dele morreu num acidente. Ele ficou mal demais, mas acho que tá melhor. Tento ajudar, mas vejo em mim coisas que vejo nele e tenho calafrios. Eu estou sendo egoísta ou sem noção em dizer que eu me sinto aliviado de saber que eles se separaram? Tudo bem pensar que existem pessoas que não nasceram para ficar juntas e que merecem procurar a felicidade longe umas das outras?

Ele passa a gravar os pais com o celular. Heitor promete que vai dar ao filho um mini craque do Vini Jr., caso ele passe no vestibular.
— Você tem tantos bonequinhos, né filhão?
— Você acha que o Vini pode fazer um feat com a bonequinha da Pabllo Vittar que o menino tem, Heitor? É feat que fala, né, Douglas?

Ele vira a câmera para si mesmo e dá um zoom, rindo de leve:
— Sim, mãe, é feat que fala.

O vídeo vai para o Instagram, no perfil com 15 mil seguidores. Os pais entendem que ele trabalha “na internet”, mas não sabem mais do que isso. Sabem apenas que nunca faltou nada do básico para Doug e a separação até que lhe fez bem: o pai saiu de casa e a tia veio para o lugar dele. Elvira é a única pessoa da família com a qual o menino tem uma conexão mais intelectual. A madrinha do garoto é a inspiração lúdica, artística, enfim-você-entendeu-ística de Doug.

— Se não passar, filhão, claro que eu vou ajudar a pagar o cursinho — garante Heitor.
— Deu pra mentir agora? Como diz a outra lá, eu já tenho problemas o suficiente sem você.

O post no Instagram já tem 100 likes e uns vinte comentários.

Não vai achando que eu sou famoso não, Ari. Sou uma subcelebridade que só ganha em likes e “recebidos”. E olhe lá. Trocaria tudo isso por ser mais normal. O negócio é que esse aparelhinho é tipo um escudo que me protege de relações não controladas com humanos por aí. Essa telinha é mais previsível: eu sei o que eu preciso fazer. É uma sensação gostosinha de controle, sabe? Metade dos comentários me xinga, metade me chama de gênio. Mas não é nada exagerado, já me acostumei. Do celular, acho que sei o que esperar. Eu posso ser uma pessoa que sorri pouco, uma pessoa que só fala do que quer falar… Eu me sinto outro Doug quando tô falando merda na internet.

O carro estaciona na frente da casa de Doug, e Michele já está esperando por ele. Ela vive por lá: a morada do amigo é mais central do que a dela. O about me da garota no X, no qual não posta há cinco ou seis meses, resume bem quem ela é: sagaz e sem saco para escrever bio. Isso é muito Michele. Ela não postar há tanto tempo também é muito Michele. São só três fotos no Instagram e um vídeo no TikTok. Nunca baixou o Linkedin. Se o curso escolhido for mesmo Administração, talvez tenha que criar uma conta por lá para conseguir vagas de estágio.

Ao ver a amiga, Doug começa a rir. Diz que não sabia que o traje indicado era passeio completo. Ela o manda calar a boca e falar logo como foi na prova. Ele inclina a cabeça o suficiente para ela mudar de assunto. Os dois matam tempo no quarto de Doug. Quando passa das 19:00h, vem a pergunta: “Quem vai pedir o Uber para o rolê pós-provas?”. Doug diz que pode ser ele, mas tem que ser Uber bag. 

— Só assim pra caber seu look de princesinha.
— Podem falar que estou fubanga, mas não podem falar que estou feia. Pede o Uber, viado.

Enquanto ele chama o carro, ela espalha glitter no rosto do amigo, fazendo um carinho e rindo. Ele ri de volta e olha a amiga, da sandália rosa ao cabelo cacheado mais bem definido do que imagem de TV 4K.

— Senti falta de uma tiara de gatinha nesse look.
Ela tira uma tiara de gatinha da bolsa e bota na cabeça:
— Bora.

O carro encosta na frente da casa de Doug, um sobrado que cresceu no ritmo da agenda e da conta bancária de seus pais. Tem uma parte ali do Barro Preto cheia dessas casinhas tortas: um novo conceito para a expressão “patrimônio tombado”. Cria da região central de BH, o garoto adora se perder em meio a prédios gigantes históricos: já combinou até de dividir um apê com Michele no edifício JK, ali do lado, assim que começarem a ganhar um pouco mais.

No caminho até a casa de Gusta, o Uber passa por duas dúzias de bares que eles nunca frequentaram. Michele prefere ficar conversando em cafeterias ou sentada em algum banco na Praça da Assembleia, ou até escorada no coreto da Praça da Liberdade, depois de uma ida a alguma exposição nos museus ali por perto. Uma mostra gratuita, é claro, porque dinheiro não costuma sobrar e ela ainda economiza para ir a algum festival com Doug.

Os dois amigos, enfim, chegam a uma casa espaçosa, iluminada por mais lâmpadas do que os olhos podem contar. Entram sem tocar a campainha e acenam para Gusta, que vem recebê-los. Embora caminhe normalmente, na cabeça deles é como se o rapaz estivesse andando em câmera lenta e ao fundo estivesse tocando um mashup de “We Belong Together”, da Mariah Carey, com um sucesso apaixonado do Jorge & Mateus.

— Olha aí o casal mais não-casal que eu conheço — comenta Gusta, rindo agachado, enquanto amarra o sapatênis de couro bronze. 

O riso provoca uma covinha no canto esquerdo da boca que… bem, o que se tem que saber é que perto de Gusta, o galã Shawn Mendes é o monstruoso Vecna de Stranger Things. Douglas responde à provocação com um mero “aff”. Michele faz um duplo twist carpado com os olhos. Gusta convida os amigos para “bebemorar este Enem top”, típica frase de quem acha Linkedin a melhor rede do mundo. Doug e Mi não têm nada para comemorar, mas topam beber para esquecer. Estar em uma mansão no bairro da Pampulha, possível cenário para uma versão mineira do filme Parasita, ajuda a espairecer.

Ela vai de vodca com coca e Doug pede uma cerveja long neck, a mais “levinha” possível. Ele gosta de beber em um copo com nove partes de cerveja e uma parte de limão espremido. Gusta capricha na voz debochada: “Não vem com esses papos, que eu sou de biológicas.” 

Eles riem. Bem no fundo do isopor, escondida, está a garrafa que ele guardara para Doug. Michele olha a bunda de Gusta quando ele se abaixa para pegar a cerveja. Douglas olha também, de forma mais discreta.

Uma menina em busca de uma tônica no isopor, agachada na frente de Gusta, percebe a cara de bocó dos dois conferindo a traseira do amigo. Ela faz uma cara de “É, parece uma boa visão mesmo, não julgo”. Os dois percebem que estão secando a bunda do amigo e disfarçam. O alvo do crush duplo não nota a indireta da menina. Também não nota a encarada. Tampouco nota o climão. Na real, ele geralmente nada nota. Gusta se levanta e dá a long neck para Douglas.

— Mas fala aí, que cês vão aprontar nessa semana?
— Nó, eu tenho umas publis pra fazer.
— Essa camisa e esse tênis que ele tá usando, o Doug ganhou na permuta. Puta influencer — adjetiva Michele, zoando.

Gusta estica o braço, pega uma garrafa de vodca e quase enche um copo. Ele entrega para Michele.
— Toma. A coca tá ali — diz, apontando a mesa.
Os três caminham em direção às bebidas. Conversam sobre o “Projeto Professor Gusta”, como ele chama seu plano de carreira. O menino quer sair do cursinho e se formar em biologia… para ser professor de biologia no cursinho.

— Mas não quero pensar no meu projeto, estou nessa festa aqui, numa vibe meio carpe diem, saca?
— Ai, lá vem… — provoca Michele.

Gusta aponta para a festa. Segundo ele, tudo o que curte está ali:

1) Uma mesa tem uma pilha com quatro caixas de pizza;
2) A TV de 55 polegadas passa um episódio de Friends;
3) Um garoto dedilha uma balada dos Beatles no violão.

— Comida boa, série boa, música boa — resume Gusta.

Michele e Doug se entreolham.
— Daí todo mundo vaza e você vai pra sua cama, ler um Harry Potter ou um Senhor dos Anéis antes de dormir… — diz ela.
— O kit do jovem médio — completa Doug, rindo.
— Um brinde a Elijah Wood, Daniel Radcliffe e o macaco do Ross. Os três melhores atores do mundo! — caçoa.

Gusta abraça os dois e fala no ouvido do amigo:
— Tem hora que é foda acompanhar todas as suas citações, cara! Meu cérebro dá um nó tentando pegar cada referência.

Douglas pede desculpas.
— Não precisa se desculpar. É seu jeitinho — Gusta responde.

O dono da festa ouve alguém gritar o nome dele. Sai para ver o que está acontecendo, mas olha para trás:
— Pior que eu tô relendo o Pedra Filosofal.

Os dois suspiram ao mesmo tempo, como se fossem a primeira e a segunda vozes de uma dupla sertaneja. Possivelmente, Jorge & Mateus. Douglas pega o celular.

Como alguém tão óbvio pode ser tão magnético, Ari? Magnético não, gato. Gato não, princeso. Princeso não… enfim.

Michele cutuca Douglas e aponta uma garota do outro lado da sala:
— Aquela menina ali tá te olhando.
— Pô. Faria fácil.
— Que bom que usou o tempo verbal correto. Fazer mesmo, cê não faz nada, que eu sei.
— Pois é. Um dia farei.
— Se você pudesse escolher entre fazer sexo ou fazer Jornalismo na UFMG, o que faria? Só pode um.
— Sexo e Jornalismo na PUC.

Yasmin, a tal garota do outro lado da sala, poderia ser uma mini modelo ou mini aeromoça. Mas é apenas uma menina de short jeans, cabelo curto ruivo desbotado estilo Beiçola e blusa cropped. Ela se aproxima de Doug.
— Viu minha camisa?

Um dia antes, Douglas havia gravado um vídeo para o Instagram. Atrás dele, Madonna dançava na frente de clipes de várias fases diferentes, passando rapidamente em um fundo com efeito chroma key.
— Chamar a Madonna de tia do zap só porque ela postou um vídeo falando algo errado é etarismo. Falar merda não tem a ver com idade. Vamos parar com esse preconceito com quem é mais velho ou mais velha? Ainda mais com a rainha. Cancela a Madonna que eu cancelo você. Leave Madonna alone.

Yasmin insiste:
— Não me ouviu? Oi? Você viu minha camisa?

Ele desvia o olhar da estampa, uma foto de Madonna usando polainas. Até porque olhar para a estampa é olhar para os peitos de Yasmin. A camisa é apertadinha.

Ela tira o celular do bolso e mostra a tela para ele:
— Esse seu vídeo me fez ficar ouvindo Madonna o dia todo hoje. Você é muito bom. Etarismo é foda mesmo.
Ele agradece, encabulado, e ela prossegue:
— Ela é sua namorada?
Michele responde na velocidade de “Hung Up”, hit da fase diva disco dance de Madonna: — Não, não, inclusive tão me chamando ali ó.
Mi aponta para longe e sai andando:
— Opa. Tô indo.

Yasmin passa a mão no rosto de Douglas, ainda salpicado por glitter. A mini menina passa um pouco no rosto dela e ele ri sem graça. A garota nota que ele está com a barraca armada na calça. Uma rodinha onde estão Michele e Gusta observa os dois. Yasmin ri alto do que Douglas está falando. Ela beija o pescoço dele. Ele abre os olhos e vê que está sendo observado. Depois, fecha os olhos.
— Você é bem gatinho, ein? — sussurra Yasmin.

Obrigado, Ariana, por ter lançado um álbum só sobre sexo. Foi um dos que mais curti, mas algumas coisas eu não entendi. Talvez por nunca ter feito sexo. Eu só… beijo.

Ela o beija de língua e beija o pescoço dele de novo.
— Hmmmm. Tá tudo bem?
Ele não responde.

Nunca estou bem, nunca fico solto. Quando tem uma chance de ir além disso, eu paraliso. Nem um “34+35”, como você canta, eu encaro. Só de pensar no tal de 69 eu fico sem ar, tonto, suado.

— Você quer ir ali no quarto? Você tá tão calado, Doug.
— Oi? Ah, a-acho que não.
— Tadinho. Vamos ficar aqui.
— A gente pode ir pro sofá?

Os dois se deitam juntos. Na manhã seguinte, em seu quarto, Douglas dorme pelado com uma menina igualmente pelada. Um celular toca cada vez mais alto e ele acorda assustado. Era um sonho. Com cara de alívio, o garoto aperta a função soneca do celular e vira para o outro lado da cama. De fato, há uma menina pelada, Yasmin. Sentado na cama, ele pega o celular de novo.

Puta que pariu, Ariana!

Ao botar os pés no chão, Doug pisoteia Michele e ela acorda dizendo “ai”, deitada em um colchão fino.
— Bom dia, amiga.
— Oi — responde ela, soltando faísca pelo olho. Ninguém gosta de ser acordada tipo uvas em uma vinícola.
— Eu. Você. Yasmin. Ontem? — pergunta ele.
— Nossa, você agora se comunica sem verbos? Não rolou nada com ninguém. Você apagou e a gente te trouxe.

O menino despenca da cama para o colchão e abraça a amiga, a despeito do mau humor matinal dela. Eles olham para o teto. A queda acorda Yasmin:
— Oi, gal.

Os três observam a parede dominada por pôsteres de divas colados com fita crepe. São usados como decoração, mas despistam o mofo e a pintura descascada das paredes. Uma bonequinha da Pabllo Vittar faz um pocket show para outros bonequinhos em uma escrivaninha capenga. A janela do quarto está meio solta, sustentada por três pregos. Mal fecha direito, mas proporciona um ventinho cordial que atenua o calor pré-verão daquele dezembro cheio de recordes de temperaturas máximas.

Michele pega o celular. A tela inicial quase sem apps ilumina o rosto dela. Para ela, redes sociais são perda de tempo. Usa o aparelho para pedir Uber, fazer anotações, ler notícias, ouvir música e, claro, olhar a hora, como agora. São quase oito da manhã. Se quiser tomar banho, a hora é agora.

Doug fica no colchão e Yasmin cai em cima dele. Sozinhos pela primeira vez desde a festa, o novo casal começa a se pegar. Desta vez, a primeira parte do corpo do garoto a endurecer é o pescoço. A iminência de serem pegos pelados o faz dar uma travada na nuca. Yasmin nota que ele está torto e para de sensualizar.

A garota dá um beijinho no cangote dele e vai se arrumar. Assim que ela se levanta, ele faz um vídeo para o Instagram. Ainda deitado, está com a cabeça próxima do rodapé que parece ter sido instalado por alguém que tem salsichas no lugar das mãos:

— Ariana Grande é uma das melhores cantoras em atividade, mas tenho uma revelação: ela não é nem Ariana e muito menos grande. Ela é uma canceriana pequena.

As duas meninas conversam e se preparam para o dia. Douglas mantém o celular na mão, em uma conversa com sua diva.

Minhas crises de ansiedade melhoraram um pouco, e devo isso a esse hábito estranho de encher de DMS as caixas de entradas do Insta das minhas divas pop favoritas. Como você, Senhorita Grande. Essa é minha obsessão atual. Cada mensagem que eu empilho no seu perfil alivia minha lordose e minha escoliose. Tira um peso das minhas costas. Eu fico mais distraído pensando nisso ou em qualquer coisa que me deixa mais calmo? Sim. Mas, debaixo dessa casquinha de desdém, dessa fina camada de indiferença, há uma pessoa fervilhando. Eu acho que a Paola Carosella conseguiria fritar um ovo no meu peito. Não espero que você entenda que estar distraído e estar concentrado sejam, para mim, praticamente a mesma coisa.

— Douglas? Douglas? — insiste Yasmin.
— Ele fica viajando assim sempre? — pergunta ela.
— Toda hora. A gente vai indo nessa, tá, Doug? Tô atrasadinha — diz Michele.
— Eu também. Vou com você — avisa Yas.
O garoto se levanta pulando da cama e se veste em 30 segundos, para acompanhar as amigas.

Helsa e Elvira convidam o trio para tomar café, mas as moças negam. Estão mesmo atrasadas. A tia tenta puxar papo sobre o gabarito extraoficial do Enem que acabara de ser liberado. Ela logo percebe que, mais uma vez, o menino não transformou os estudos em desempenho.

Douglas se serve de café, faz cara de nojo e cospe de volta para a xícara. Está mais para chafé. Helsa dá uma bufada e sai para a cozinha. Ele é repreendido por Elvira.
— Garoto, ela tá numas de pão duragem, porque não quer entrar no cheque especial.

Na cozinha, Helsa prepara bolos e docinhos. Eles estão perto de uma placa com preços e a frase “Aceitamos cartões e PIX”. A maior parte da renda que sustenta a casa vem da venda dos quitutes para festas e na rua, em uma banquinha montada na Praça da Savassi, frequentada por pessoas de óculos de armação grossa e tatuagens de traçado fino.

Elvira ajuda no orçamento sempre que pode. Mas não tem podido.
— Sabe quantos eventos eu fotografei nesse mês? — pergunta ao afilhado.
— Dois? — chuta ele.
— Um. E vendi umas fotos por mixaria, uns 200 conto. “Carmo Dalla Vecchia passeia com gato usando coleira.”
— O ator ou o gato? — implica ele.
— O gato — diz ela, séria.
— Vai me zoando, menino. Foi a verba das fotos que pagou essa bisnaguinha que cê tá comendo.
— Se você quiser, eu cuspo.
— Na real, pagou tudo dessa mesa. Tirando esse creme gorduroso de chocolate branco ali, que cê ganhou de brinde.

Somando tudo o que já ganhou como influencer, o menino não embolsou mais do que mil reais no último ano. As publis feitas por ele são pagas com produtos. É a boa e velha permuta. Já aceitou até “uma brotinho de cada sabor” para fazer stories no dia da pizza. Aprenderam na marra que comer pizza por cinco dias seguidos causa prisão de ventre, o que foi resolvido após quatro posts pagos sobre um desses iogurtes que soltam o intestino.

Helsa nota a conversa na sala e aumenta o som do radinho, com um hino de louvor bem gritado e melodia mais colante do que post-it genérico (até porque vivem caindo). Elvira arruma os óculos de gatinho no rosto e tenta dissipar o climão:
— Eu vi uns outros clipes da Ariana Grande e achei sensacional.
— Jura? — responde ele.
— Nessa era dela aí ela tá mandando bem demais. Tem toda uma vibe “garota materialista” da Madonna, né?

Ele concorda.
— E eu ouvi uma outra dela que parece muito “Vogue”, que é uma das minhas preferidas da Madonna, como você sabe.
— É essa daqui, né? — ele pergunta, antes de botar “Yes, And?” para tocar no celular.

Os dois suspiram. A campainha toca. Michele, sem querer, interrompe o momento fraterno. Ela procura por algo que esqueceu. É uma biografia da Michelle Obama. Ela balança a cabeça mostrando o livro e dá uma risadinha tímida.
— Estou lendo porque somos Micheles e somos negras poderosas.

Elvira sorri e se afasta em direção ao notebook. Michele e Douglas dão um beijo de tchau em Helsa, na cozinha, onde veem, presa na geladeira com um ímã, uma cartela com selinhos (daqueles que se trocam por produtos nos supermercados). Um post-it com a frase “um dia chego lá” está grudado nela. Doug bate a porta da casa e o batente cai. Ao reencaixar o batente com um chute, a maçaneta despenca. Ao forçar a maçaneta, a fechadura frouxa derruba a chave. Atrasados, Michele e o garoto ajeitam tudo e vão embora.

No metrô, a dupla divide o earphone: um fone para cada. Juntos, selecionam pretendentes no Tinder de Doug.
— E essa? — pergunta ele.
— Não, tem cara de quem faz crossfit.
— E desde quando isso é ruim? Achei gata.

Ele desliza para a direita.
— Ah lá, deu match. Chupa, mundo. E essa?
— Com certeza, tem corpo de quem faz crossfit.
— Ah, achei a descrição meio over: “sou da vida”. Não diz nada… E esse?
— Por que cê me pergunta, se eu falo uma coisa e você faz o contrário?
— Sei lá. Sim ou não?
— Acho que não. Caíque é nome de gente que beija mal.
— Vou dar “não”. Mas achei até que fofo.
— É a cara do Cebolinha.
— O jogador ou o desenho?
— E faz diferença?
— O Cebolinha da Turma da Mônica Jovem é gato, ué.
— É. É mesmo.

Ele dá like no garoto, mas não rola match.

Douglas sai do Tinder e Michele vê que ele trocou várias DMS com Yasmin. Ela também vê o perfil de Ariana cheio de mensagens.
— O que essa Ariana tá fazendo nas suas DMS?
— Ahn? Nada não.
— Deixa de besteira, me dá o celu…
— Para, porra.
— Nossa. Calma.

Em uma sala arrumadinha, Douglas tenta sorrir para uma psicóloga com cabelos volumosos.
— Sim, tô bem melhor.
— Uma semana, zero crise. É isso?

Ari, você sabe que foram duas só ontem.

— Douglas, você está de novo fazendo cara de avoado, de que está só com o corpo nesta sala.
— Desculpa. Quando fico ansioso eu tento respirar bem devagar…
— E a prova?
— Já é uma coisa do passado. Acho que até que fui bem.

Ele fica calado durante um bom tempo.
— E o que você mais quer agora?

Abaixo de uma pequena árvore de Natal, Douglas olha para um quadro de uma mulher em pose fleumática, uma pintura que lembra a Monalisa. Ele pisca e vê Ariana Grande na tela.

Transar, né, Ari. Se eu tenho crushes e vontade, por que eu ainda sou virgem?

— Você tá me ouvindo, Douglas?
— Sim. Eu acho que preciso me concentrar mais. Melhorar mais minha saúde mental. Que está boa, mas pode melhorar.
— Que bom, que evolução. Você lembra que eu falei pra você pensar em fazer ioga, né? — Sim, tô fazendo com aquele app.
— Ah, que bom, Doug.

Pois é, Ari, eu minto pra caralho na terapia. Mas pra você não, baby.

— Douglas? Acabou a sessão. Douglas?

Ele se levanta rapidamente.
— Obrigado. Até semana que vem!

Ao sair da terapia, o garoto se assusta ao ver que o celular tem mais de cem mensagens, separadas por vários contatos. Ele vê Gusta do outro lado da rua e grita pelo amigo. O galã acena de longe e caminha na direção dele, deixando um rastro de areia. A quadra de beach tennis fica na frente do Hospital Universitário, onde Doug é atendido via SUS.

— Pô, parabéns pra sua mãe, cara!
— Ué, o aniversário dela é só em junho.
— Pô, é mais fácil mostrar. Olha quantos views.

Gusta dá play em um vídeo de Helsa ensinando uma receita do bolo de chocolate “mais chocolatop do mundo”, no Instagram.

O vídeo para divulgar o delivery de bolos foi repostado por Juliette e viralizou forte. Já são mais de 2 milhões de visualizações e 50 mil compartilhamentos. 16

— Olha essas belezuras de ingredientes. Eu não entendo quem não gosta de chocolate. Não entendo. Ele te deixa ligadão, é bom até pra libido, pra namorar pelado. Outro dia eu tava vendo TV, e era Largados e Pelados. E eu não entendo esse nome. Não aparece nada. Deveria ser Largados e Borrados.

A imagem treme levemente. Doug, que está gravando o vídeo, dá uma risada.
— Mas eu tava falando de chocolate. Ele resolve todos os seus problemas, ele até é o viagra dos doces. Mas vamos, então, com minha receita de bolo mais chocolatop do mundo.

Doug faz um comentário no vídeo, desejando um pedaço do agora famoso bolo. Ele nota que quase todas as mensagens no WhatsApp são sobre o vídeo da mãe dele.
— Demais, né? —pergunta Gusta.
— Daqui a pouco vai tá com mais seguidor do que eu.

Ele e Gusta continuam andando juntos.
— Peraí, vou mandar um áudio: Olha a dona Helsa, famosinha na internet. A partir de hoje só vou te chamar de mami meme.
— Que fofo — comenta o amigo.

Douglas fica sem graça. Gusta bota a mão em seu ombro. Ele está constrangido. E de barraca armada.

Na Savassi, Helsa e Elvira arrumam doces e bolos em uma barraca, quando um homem engravatado se aproxima.
— A senhora tem o bolo chocolatop da internet?
— Quê? Tem — responde Helsa.
— Me dá 10.
— Vish. Tá.

Uma mulher cutuca e já sai falando:
— Tem o chocolatop, dona Helsa?
— Como você sabe o nome dela? — pergunta Elvira.
— Ué, você não viu que ela tá bombada?

O celular de Helsa vibra e ela olha o que é.
— É áudio do meu anjo.

Ela ouve com o telefone no ouvido.
— Tem o cholatoso? — pergunta outra cliente.
— É chocolatop que fala — ensina, outra mulher da fila.
— Isso aí. Tem que falar certo. Se não falar certo e não tiver dinheiro trocadinho ou cartão de débito, não vendo — avisa Helsa.
— Tem como botar calda extra? — pergunta um rapaz.
— Não tem. Que folga. Ele é chocolatop. Não pode duvidar da quantidade de calda.

Há pouco mais de seis meses, Helsa virou uma empresária (“empresária? Que chicura!”, diria ela). Esguia e elegante, tem 50 anos e veio do interior mineiro para continuar sendo cozinheira. Perambulou por restaurantes, mas decidiu empreender. Tem como hobby conversar com a TV: responde o “Bom dia” da Ana Maria e o “Boa noite” do Bonner. Se fosse convidada para apresentar um programa de culinária na televisão, teria que mudar bem pouco o figurino. Qualquer peça de roupa tem seu caimento potencializado no minuto em que toca a pele dela. Helsa não sabe tão bem a diferença entre suéter, cardigan e pulôver, mas o guarda-roupa tem boas opções dos três tipos de agasalhos.

Em uma cafeteria não muito longe dali, Caíque, um rapaz alto de óculos discreto e cabelo raspadinho, se aproxima do caixa para pagar a conta de um expresso duplo com croissant. Michele se apressa e pergunta:
— Crédito ou beijo?

Na fila, um casal e um idoso dão risada. O moço fica sem graça:
— Débito.
Ele paga e vai embora. Uma colega assume o caixa e Michele começa a recolher os copos nas mesas. Quando está com a bandeja cheia, vê que o rapaz voltou.
— Oi?
— Oi.
— E se eu tivesse falado beijo?
— Eu teria dito Crédito ou Débito?
— Hm.
— Não beijo no trabalho.
— Entendi.
— Mas eu saio às 6:30h.
— Vou sentar ali.
— Vai sim. Qual seu nome mesmo?
— Caíque, e você? Michele, né?
— Como você sa… Ah, tá aqui no meu crachá.
— Isso.
— Ow. Só mais uma coisa. Já te falaram que você é a cara do Cebolinha?
— Semple.

Na frente do café, Douglas olha o relógio de ponteiro em uma loja marcando 6:30h. Ele faz cara de desconfiado e tira uma selfie do lado esquerdo do rosto.

Ari, como foi ser criticada por só querer ser fotografada do lado esquerdo? Como foi ser criticada por lamber um donut de uma loja? Por que todo mundo te enche tanto o saco? Como você aguenta? Você está melhor depois da morte do seu ex e do atentado pré-show em Manchester? Como foi se divorciar? Tudo isso deve ter sido fo…

— Oi — interrompe Michele.
— Oi.
Douglas percebe que um carinha está atrás dela e se assusta.
— Oi — diz Caíque.
— Doug, eu vou naquele banquinho ali do lado e a gente já vai, tá?
— Aham.

Ela sai com Caíque, puxando-o pela mão. Douglas dá o play em “Problem” (de Ariana Grande, é claro). Quando os 3 minutos e 13 segundos da música estão quase acabando, Michele volta com o batom borrado. A última soprada do saxofone ainda está ecoando no momento que ela convida:
— Bora.

Michele e Douglas vão ao supermercado comprar um pacote de café para ajudar o abastecimento da casa. Ela pega o amigo pelo braço, desconectado da vida real, pensando em uma DM.

Poxa, “Seven rings” é uma música boa demais. Quando uma mulher canta que quer comprar as coisas tudo, falam um monte de bosta, né?

Mi procura a prateleira com cafés e escolhe um baratinho e não tão ácido.

Mas daí no hip hop e no metal farofa tá cheio de homem fazendo homice e cantando que quer comprar tudo. Daí é a coisa mais normal do mundo…

Com o pacote de café escolhido, os dois ficam na frente dos caixas do mercado. A garota se aproxima de uma mulher pagando as compras.
— Você vai querer seus selinhos da promoção?
O menino aborda um homem com dois filhos arrumando as compras no carrinho.
— Você vai querer seus selinhos da promoção?
Mi cutuca o ombro de um casal empacotando as compras.
— Vocês vão querer os selinhos da promoção?
Eles saem do supermercado pulando e empurrando um ao outro.

Helsa chega do trabalho e é surpreendida por Douglas. Ele a recepciona com os selinhos e o pacote de café. Elvira dá espaço e o gesto do menino se transforma em um abraço meio emocionado. Helsa enxuga uma discreta lágrima no rosto com um pano de prato.
— Um dia eu vou te dar uma casa, mãe.
— Reformar essa já seria bom… — provoca Elvira, também emocionada.
— Pão e manteiga, você não comprou não, né? — pergunta Helsa.
— Tsssss…

Elvira abaixa a cabeça e pinça o espaço entre suas sobrancelhas com o polegar e o indicador, mas Helsa se explica:
— É claro que eu tô brincando, meu anjo.

Douglas pergunta para a mãe como é ser famosa nas redes. Ela diz que não quer like, prefere transferências via PIX.
— De repente isso vai dar dinheiro. Calma. Você não vendeu mais hoje? — ele pergunta.
— Sim. Bem mais.
— Pode ter a ver com isso, ué.
— É, né.

Elvira se empolga:
— Ele pode ser o nosso social media.
— Hm? Não entendi — Helsa responde.
— Botar vídeos e fotos dos bolos, dos doces, pra gente vender mais.
— Se vai vender como a gente vendeu hoje e rolar encomendas, então tá contratado.
— Aí, Doug, finalmente, teu primeiro emprego — conclui a tia, zoando.
Ele comemora com ironia:
— Ê.

Helsa interrompe a “contratação” com dois recados:
— Um sério, outro nem tanto.

Ela diz que Heitor está preocupado, depois do que aconteceu no Enem. Uma visitinha cairia bem. O menino concorda, mas quer saber do outro recado. A “namoradinha” dele está esperando no quarto.

Quando vai até lá e abre a porta, Yasmin está vestindo apenas uma camisa do clipe “Rain on me”, em que Ariana abraça Lady Gaga. Com o olho arregalado, Douglas tranca a porta.

Ela apaga a luz, parte para cima do garoto e eles começam a se enroscar na cama, debaixo das cobertas. Após um vai e vem de mãos e suspiros, botam a cabeça para fora da cabaninha. Ele está ofegante e com cara de decepcionado.
— Não precisa ficar nervoso. Não estou com pressa.
— Obrigado, você é uma fofa…

Ari, por que me falta ar sempre que estou prestes a ser um carinha normal que faz coisas normais? Eu sinto que vivo pisando em ovos, tentando me esconder. São 18 anos de quases. Às vezes, quando eu era mais novinho, eu me tranquiliza: calma, isso que hoje te dá tremedeira e calafrios vai ser uma coisa corriqueira quando você tiver uns 18 anos. A maioridade chegou, mas eu não dirijo, fico bêbado com duas long necks, sou virgem e tenho dificuldade de me abrir até pras pessoas mais próximas. Por que aquela criança que sabia a capital de todos os países e era o orgulho dos pais virou isso daqui?

Yasmin chama um Uber e Douglas se despede. Ele não precisa de carona. Em uma caminhada de cinco minutos, chega à casa do pai, um apartamento no térreo de um predinho de três andares com as janelas gradeadas e a fachada faltando um quinto dos ladrilhos. Na mesa da cozinha, Heitor arruma uma caixa de ferramentas.
— Poxa, deu ruim então, Doug?
— Agora é cursinho de novo, tudo de novo, pagar matrícula e mensalidade de novo.
— Você já jantou? Tem lasanha.
— Eu como um pedaço, sim.
— Essa semana foi puxada, viu? Muitas visitas. E tudo elétrica, encanamento. Mas não reclamo não. Tirei uma grana boa. Pega a lasanha lá?

Ele vai até o micro-ondas, bota o prato com um pedaço de lasanha e aperta 6:30.

Bia, vestida com roupa de goleira, se aproxima.
— Com essa potência e esse tempo de aquecimento, esse pedaço de lasanha vai virar um lindo carvãozinho.

Douglas ri e diminui o tempo no micro-ondas para 2 minutos.
— Boa noite para você também, querida irmã.

Assim que ele bota o prato numa bancada, Bia entrega um álbum da Copa do Mundo Feminina.
— Fala o nome de uma jogadora, Doug!
— Vou aproveitar que ela começou isso daí e vou arrumar um treco lá na garagem, tá?
— Cê não larga as ferramentas nem quando tá em casa, né?

Heitor ri com timidez e se afasta.
— Consertar coisas é o quarto maior prazer da vida.
— O futebol é o primeiro?
— Não, tonto. O primeiro é um beijo de quem você ama, o segundo, futebol, quase acertou, o terceiro é a coxinha do bar do seu Plínio.
— Justo — diz Doug, rindo sem paciência.

Bia ainda está encarando o irmão.
— Gabi Portilho — escolhe o garoto.
— Boa escolha. Gabrielle Jordão Portilho nasceu em 18 de julho de 1995…

Sentado no chão, Pepê, do alto de seus oito anos, brinca com um slime. Após o showzinho de Bia, Douglas, com o celular, senta em um canto do sofá. Antes, passa a mão na cabeça de Pepê, que ri e o cumprimenta com um enigmático “Eaílsson?”

Os irmãos permanecem entretidos e Doug manda mais uma DM.

Como você segue plena e lançando um single bom atrás do outro mesmo depois de tanta merda na sua vida? Seria por que você “não tem mais lágrimas para chorar”, como você canta? Existe uma pós-tristeza, um certo desapego de tudo? Será que estarei vivo para ver a máquina que apaga memórias melancólicas sair do filme Brilho Eterno e ser inventada na vida real? Quando essa resiliência que você tem vai chegar pra mim, Ari?

Michele chega e diz “boa noite” para todo mundo. Pepê oferece um slime com um vermelho bem vivo para Douglas. Michele se aproxima do menino: — Pepê, qual seu nome real oficial?

Quando ele vai responder, é interrompido por um berro de Doug. Ao encostar na gosma, nota que há tinta escondida. Ele não sabia. Pepê grava a reação com um celular em um tripé.
— Trolei o meu irmão! Agora vai gastar o detergente todo daqui de casa. Isso se sair né! Essa foi mais uma trollada aqui do canal Pepêtuber.

Douglas fica chateado e sai para lavar as mãos.
— No próximo vídeo, eu vou explodir um monte de coisa no micro-ondas, mas não vou falar o que. Se você quer saber, tem que me seguir, deixar seu like e clicar no sininho.
— Cê tá maluco, Pepê? Isso é perigoso, mano. Cê deixou seu irmão bravo — avisa Michele.

Bia ainda folheia o álbum sentada no sofá e faz cara de nojo. Pepê sai correndo, meio que fazendo parkour.
— Obrigado por ter vindo, miga.
— De nada.
— Sabe o que eu acho que me faria bem agora, Miga? 23
— Hm. — Tentar fazer yoga.
— Bora.

Michele e Douglas fazem uma aula com ajuda de um vídeo no YouTube. A professora ensina o passo a passo:
— Cachorro olhando para baixo. Adho Mukha Svanasana. Fique com os joelhos e mãos no chão. Olhe para frente. Coloque as palmas das mãos no chão. Eleve os quadris, com o quadril voltado para o teto. Respire fundo.

Na garagem, Heitor fica com os joelhos e mãos no chão, se esticando para pegar um martelo. Ele se levanta ficando de quatro. Dá uma bufada de cansaço.

A professora prossegue:
— Coloque os joelhos no chão e se sente sobre os calcanhares. Estique os braços para a frente, alinhando-os ao corpo. Relaxe sua cabeça no chão. Balasana, posição da criança. Respire fundo.

Heitor se agacha e estica os braços para ter acesso a uma fiação que passa acima do rodapé, abaixo de uma estante. Os fios estão soltos. Ele prega ganchinhos para que o fio fique colado à parede. Bufa de novo, mais forte.

Acaba o serviço, joga as ferramentas na caixa e bota na estante. Sua camisa xadrez está sem um dos botões e com um rasgo em uma das mangas, e assim ficará. Mais da metade das roupas dele tem alguma avaria. Em um canto, ele vê duas caixas de CDs velhos. Embora não faça ideia da procedência, separa alguns em uma terceira caixa. São discos de Whitney Houston, Madonna, Marina Lima, Shania Twain, Kid Abelha, Rita Lee, Tina Turner, Donna Summer, Ivete Sangalo, Kelly Key, Alanis Morissette, Cyndi Lauper e Mariah Carey. Heitor manda um áudio:
— Filhão, achei um monte de coisa legal aqui, ó. Tô separando pra você. Já já tô aí. Nó. Me fez lembrar como você é bom nesse negócio de falar de música. Cê vai ser famoso um dia. Enfim, já já tô aí.

O garoto fica desconfiado quando ouve a mensagem. O que o pai teria encontrado? Por que, do nada, está com esse papinho de pai orgulhoso?

Doug pega o celular e começa a digitar uma DM. Michele dá uma tossida fake para ele se tocar. Ela está ali, no meio de uma interação com ele. E tem mais: foi o garoto que pediu que ela fosse visitá-lo. Ele larga o celular.
— E como foi a clientela do café hoje? Muita gente esnobe, gorjetinhas?
— Ah não. Vamo ficar de papinho, é?
— Hm?
— Eu sou sua melhor amiga e você não consegue falar nada do que você sente, cara. Cê vive desconectado do mundo, não me conta nada. Que é isso?

Uma gota de suor escorre no lado da testa de Douglas.
— Tem essa mina dando mole pra você. Tem umas DMS estranhas pra Ariana Grande. Você fica avoado o tempo todo.

Douglas está mais suado, como se tivesse corrido um pouco. 

 

— Você nem fala do vestibular, tá cada vez mais ansioso.
Ele está suado. Até com pizzas.
Assustado, finalmente fala:
— Calma, Mi.

Michele entorta o pescoço.
— Se eu soubesse o que eu sinto, quem eu sou, o que eu quero, você seria a segunda pessoa a saber. Só que, infelizmente, a primeira tem que ser eu…
— Agora virou poeta pra justificar esse isolamento todo, é?

Douglas fica sem graça.
— Pois é.
— Não sou do fandom desse Doug poeta aí.

Douglas pega o celular, discretamente.

6:30h, 6:30h, 6:30h. Ou “six thirty”, como você canta na música que tem esse nome. Você tá falando do pau do seu namorado, quando ele brocha, né? É tipo como se eles fossem os ponteiros do relógio. Como eu faço para não ficar 6:30h, Ari?

— Ow, vai me deixar falando sozinha de novo?

Ao mandar a mensagem, Douglas vê um story novo de Gusta e clica para ver. Ele acabara de postar uma foto beijando Michele na festa do dia anterior. 25

— Eu disse que não sou do fandom desse Doug poeta aí — ela repete.
— E eu não sou fã da Mi traíra que pega o Gusta e nem me conta.
— Oi? Isso é o ângulo da foto, a gente tava dançando. Vamos de possessividade, então? E se fosse beijo? Cê nunca me disse que queria pegar o cara, porra. Eu pego quem eu quiser, ué.

Douglas e Michele sentem cheiro de queimado. Uma fumaça preta começa a tomar conta da cozinha e chega até a sala. Bia chega depois, esbaforida. O teto e os panos perto do fogão estão pegando fogo. Pepê quebra uma caneca cheia de água ao arremessá-la nas chamas super altas. No fogão, uma panela com uma gosma colorida começa a tingir a fumaça preta de roxo.

— Tá pegando fogo, bicho! — berra Pepê, zombando, porém constrangido e preocupado. Ao ver aquela nuvem com muito mais do que cinquenta tons de cinza, Bia liga para os bombeiros.

Heitor sente o cheiro de queimado e sobe as escadas correndo, com uma caixa debaixo do braço direito. Ele entra no apartamento e tenta entender por que o lugar está tomado por fumaça, gritos e correria. O pai de Doug se aproxima da cozinha e vê que o fogo corrói o ambiente. O rosto é tomado por suor e fuligem, misturados à sujeira do chão da garagem. Tudo gira em volta de Heitor. Ele passa a mão nos olhos e a visão fica embaçada com aquela substância melada e preta. O homem fica sem expressão. Michele passa com um balde gigante de água, berrando. Bia grita ao telefone. Pepê vê um vídeo no YouTube sobre como apagar incêndios. Heitor desmaia. A caixa de CDs espatifa no chão. Michele, Bia e Pepê escutam o barulho e vão até a sala, onde o pai está caído. Bia liga para uma ambulância. Pepê grita na janela para pedir ajuda dos vizinhos. Michele tenta apagar o fogo com um extintor vencido há três anos e cinco meses.

Paralisado, com lágrimas e sem ar, Douglas canta baixinho sentado no canto da sala: 

— Just keep breathin' and breathin' and breathin' and breathin'. And oh, I gotta keep, keep on breathin'. Just keep breathin' and breathin' and breathin' and breathin'. And oh, I gotta keep, keep on breathin'.

"Please Come to Brazil": a odisseia pop de um jovem em busca de si mesmo

A literatura brasileira contemporânea ganha um novo e intrigante título com "Please Come to Brazil", uma obra do autor Braulio Lorentz, publicado pela Editora Mondru, que mergulha nas complexidades da juventude e da era digital. O livro apresenta Douglas, um garoto de 18 anos, aparentemente comum, mas que encontra um refúgio inusitado para suas angústias: as mensagens diretas (DMs) enviadas a suas divas pop favoritas no Instagram. Lançada para ressoar com as inquietações de uma geração, a obra destaca-se por sua narrativa ágil e abordagem original, prometendo uma reflexão profunda sobre saúde mental, identidade e o impacto da fama na era das redes sociais.

A grande inovação de "Please Come to Brazil" reside justamente nessa estrutura narrativa baseada nas DMs. Douglas, que se descreve como um "cara normal com crises de ansiedade", utiliza esses desabafos com figuras como Ariana Grande, Rihanna, Lady Gaga, Miley Cyrus, Taylor Swift e Billie Eilish como uma forma de "terapia pop". Por meio dessas mensagens, ele externaliza seus pensamentos mais íntimos, desde a frustração com o vestibular e a vida sexual até reflexões existenciais e o luto pela perda do pai. Esse método confessional se torna um escudo que o protege de relações não controladas com humanos, oferecendo-lhe uma sensação de controle e previsibilidade.

As qualidades da obra se aprofundam quando o que era um desabafo particular se transforma em fenômeno público. A princípio, Douglas é uma "subcelebridade que só ganha em likes e 'recebidos'", mas a viralização de suas mensagens, impulsionada por figuras como a cantora Jusanti, o catapulta a um novo patamar, tornando-o um influenciador com mais de 100 mil seguidores e, eventualmente, milhões. A narrativa explora com maestria a linha tênue entre a vida real e a persona online, mostrando como essa fama inesperada traz novas pressões e dilemas, como a exploração de sua imagem e a dificuldade de lidar com a atenção.

A narrativa é rica na exploração da complexa psique de Douglas. Ele lida com crises de ansiedade, sente-se "frágil, fragilizado, fino como uma folha de papel sulfite", e questiona constantemente sua identidade e a autenticidade das relações. O jovem busca ser "um carinha normal que faz coisas normais", mas se vê constantemente à deriva entre o que é e o que os outros esperam que ele seja. A obra apresenta um painel de relações significativas, desde a amizade com Michele e Yasmin, que o apoiam em sua jornada, até os desafios familiares e amorosos, que o levam a um processo intenso de autodescoberta e amadurecimento.

Braulio Lorentz se destaca por capturar a linguagem e a cultura jovem brasileira, ambientando a história em uma Belo Horizonte vibrante, com referências a lugares icônicos e gírias locais. Sua escrita é marcada por observações perspicazes e humor ácido, utilizando a cultura pop como lente para analisar questões sociais e pessoais. A capacidade do autor de tecer referências culturais de forma orgânica e impactante é uma de suas maiores qualidades, tornando a leitura envolvente e identificável.

O livro é uma leitura essencial para quem busca compreender os desafios de amadurecer no século XXI, oferecendo uma perspectiva inovadora e profundamente humana sobre como a música e a internet podem ser tanto uma fuga quanto um caminho para a autodescoberta e a cura.

 

  1. Sobre a Obra

Título do Livro: Please come to Brazil

Gênero Literário: Romance

Sinopse: “Please come to Brazil” é um romance sobre a adolescência hiperconectada. Um relato de como a vida online se mistura com a offline. Douglas tem 18 anos e carrega sozinho a intensidade de um fandom inteiro. Web subcelebridade, vive mandando mensagens para suas divas pop favoritas. A partir desses chats imaginários, tenta entender a vida: vestibular, primeira vez, dinheiro, perda, religião, família, crushes e tudo que couber em uma DM.

  1. Autoria:

Nome do Autor: Braulio Lorentz

Biografia: Braulio Lorentz é jornalista musical (g1, Billboard, Folha, JB), membro da Academia do Grammy Latino e amante de divas pop. Teve o nome zoado pela Pabllo, “invadiu” o camarim da Anitta em Lisboa, levou fecho da Avril Lavigne e ensinou a Fergie a falar “bunda”. Alanis Morissette deu dicas de como meditar, Demi Lovato agradeceu por ir aos shows dela em São Paulo, Dua Lipa contou truques para esquecer ex, e Miley Cyrus concordou que celulares podem estragar a experiência de um show.

  1. Detalhes da Publicação

Editora: Mondru

  1. Citações

COM A PALAVRA, OS FÃS…

Beyoncé Brasil (mais de 150 mil seguidores no Instagram)

Nós, como fã-clube, nos vemos nesse universo. A relação com as divas pop une uma comunidade enorme, e ver isso transformado em narrativa é super especial. As referências pop funcionam super bem e você vai captar várias menções e se sentir parte da história. 

 

Fã-clube Taylor Swift Brasil (mais de 400 mil seguidores no Instagram)

Como alguém que vive e respira fandom, é como ver um retrato da dinâmica que faz um fã se sentir próximo de quem admira. Divertida e atual, essa história deixa uma mensagem que Taylor já cantou: somos, no fim, o que amamos, não nossos medos, lutos ou cicatrizes.

 

Fã-clube Ariana Em Foco (mais de 80 mil seguidores no Instagram)

Os personagens são produtos de nossa época: ansiosos, cínicos e, no fundo, carentes de conexão real. A leitura é fácil e as referências sobre as popstars (que só fãs vão entender) enriquecem a leitura, criando uma conexão especial e tornando o texto leve e divertido.

 

Fã-clube Katy Perry Brasil (mais de 130 mil seguidores no Instagram)

É uma obra sensível e traduz bem o que só quem é fã já sentiu: o desejo de uma conexão real com seu ídolo. Uma homenagem à força da cultura pop e um retrato honesto de como a música pode ser um ponto de luz nos momentos mais difíceis da nossa vida.

RESUMO

◼ Autoria

Braulio Lorentz é jornalista musical (g1, Billboard, Folha, JB), membro da Academia do Grammy Latino e amante de divas pop. Teve o nome zoado pela Pabllo, “invadiu” o camarim da Anitta em Lisboa, levou fecho da Avril Lavigne e ensinou a Fergie a falar “bunda”. Alanis Morissette deu dicas de como meditar, Demi Lovato agradeceu por ir aos shows dela em São Paulo, Dua Lipa contou truques para esquecer ex, e Miley Cyrus concordou que celulares podem estragar a experiência de um show.

◼ Ficha Técnica:

✏️​ Autor(a): Braulio Lorentz @brauliolorentz

📚 Editor: Jeferson Barbosa @jeferson3barbosa

🎨Capa e Projeto Gráfico: Gabriele Oliveira @gabrieletaiss

📚 Coordenação Editorial: Juliana Matos @juliana3matos

📚 Editor-Assistente: Gabriela Queiroz @gabiequeiroz

📚 Designer Assistente: Gabriele Oliveira @gabrieletaiss

📝​ Revisão: Matheus Mitre